O novo single de Kendrick Lamar vem embrulhado num videoclip realizado por Dave Meyers. Trata-se dum cruzamento de referências na linha da espiral criativa a que Lamar nos habituou. Um imaginário religioso, muitas vezes tomado de empréstimo da pintura renascentista, é aqui entalado com cenas clássicas da cultura americana. Os anteriores videoclips de Kendrick Lamar já tinham o mesmo tipo de intencionalidade que procuramos aqui. São obras que olham para a música como a oportunidade de produzir uma curta-metragem e realizadores que procuram ilustrar o universo de Kendrick Lamar. Cada videoclip oferece, de certa forma, uma interpretação do rapper e do seu universo.

No caso de Humble, aquilo que mais me chama a atenção é a oposição entre as imagens. Essa oposição dá-se a nível do conteúdo, mas o que mais me tocou foi a forma como as imagens se antagonizam a nível formal e estético. Como se um pintor do século XVI entrasse em combate com um realizador da MTV. E, de certa forma, essa é a mesma tensão que existe em Lamar. A tensão entre o músico requintado e o rapper de impacto popular. Vejamos dois exemplos, nos quais colei imagens de momentos distintos no videoclip.

O Papa negro

lamar1Assim, um plano que podia ser a imagem dum Papa negro iluminado pelos vitrais duma catedral dá rapidamente lugar ao lugar-comum da obsessão dos rappers pela multiplicação de notas.

O principezinho

lamar2Noutro momento, a nossa percepção é chamada a uma animação da última ceia que se sucede a um plano duma lente fish eye extrema, onde o bairro onde o rapper circula de bicicleta se transforma num mundo por si. Kendrick Lamar é agora o Principezinho.

Como conclusão, quero salientar a ruptura formal como uma ferramenta criativa. Quebras formais que não se dão em relação a obras passadas, mas sim dentro da própria obra, forçando-a a dialogar consigo mesma. E forçando o espectador a reorganizar rapidamente a sua percepção e a encontrar-se na desorganização formal do universo de Lamar.

Ser coerente porquê? O caos mora à porta.

 

 

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